Conheça Martha Gabriel, a voz brasileira da transformação digital

A especialista defende que valores humanos são fundamentais à grande transformação tecnológica.

A paulista Martha Gabriel é uma das mais influentes pensadoras da transformação digital no mundo. Seu currículo impressiona. Ela é engenheira pela Unicamp, pós-graduada em Marketing pela ESPM e Design pela Escola de Belas Artes de São Paulo, mestre e PhD em Artes pela USP. Tem formação executiva em Inovação e Neurociência para Liderança pelo MIT Sloan. É professora de diversos cursos superiores e reconhecida como uma das principais professoras especialistas em tecnologia no mundo.

Ela já comandou cerca de 1 mil palestras no Brasil, 70 no mundo, e esteve no palco de quatro TEDx. Os TEDx são eventos organizados de forma independente, mas nos moldes do descolado, californiano e famoso TED. As apresentações de ambos, TED e TEDx, objetivam compartilhar conceitos e experiências para grandes públicos sobre tecnologia, entretenimento e planejamento.

Um guia de sobrevivência

Martha publicou seis livros. O último, de 2018, “Você, eu e os robôs – Pequeno manual do mundo digital”, é um guia para que nós “sobrevivamos” à transformação digital. Isso deve se dar, diz ela, transformando tecnologias em aliadas, nunca inimigas. Um exemplo de tecnologia que deve ser tratada como amiga é a inteligência artificial (IA).

Permeiam sua obra temas como trabalho, educação, privacidade, ética, filtros, pós-verdade, pensamento crítico, criatividade, inteligência artificial, robótica, convívio homem-máquina, entre outros. O livro parte dos valores essenciais do homem para examinar cenários de um futuro próximo.

O grande passo

Segundo Martha, a computação cognitiva – sinônimo de inteligência artificial – é o próximo grande passo da humanidade. E pode transformar a vida na Terra de forma tão ou mais profunda que o fogo ou a Revolução Industrial.

A IA é a terceira onda computacional da história humana – a primeira foi a computação de tabulação (1900), seguida da computação programática (1950). Agora estamos no início da disseminação da computação cognitiva (CC), em que o computador não apenas executa comandos programados pelo ser humano, mas vai além, passando também a “pensar”.

IA em livros e filmes

Segundo Martha, em artigo em seu site, o conceito de computação cognitiva remonta ao século 20. Foi quando diversos livros e filmes de ficção abordaram o tema: os livros que viraram filme “Eu, Robô” e “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. O público se impressionou e acolheu o futuro mostrado. E os sucessos do cinema continuaram com “Blade Runner”, “Terminator”, “AI”, “Matrix”, “Simone”, “Eagle’s Eyes”, até os mais recentes “Her” e “Transcendence”. Também séries para a televisão, como “Westworld”, já na segunda temporada, seguem como atração pop.

A questão de uma máquina poder “pensar” como ser humano sempre suscita discussões. Martha explica: “A IA tem potencial inigualável para ultrapassarmos as limitações de nossos cérebros, levando-nos a um progresso gigantesco. Mas também traz a possibilidade de um futuro em que computadores eventualmente superariam e subjugariam a raça humana”.

De uma forma ou de outra, o processo é irreversível e em poucos anos estaremos vivendo em um ambiente de inteligência artificial.

Inteligência artificial, mais big data, mais…

Nos últimos meses Martha vem apresentando palestras sobre mudanças que estão aí e outras que irão acontecer. E fala que a inteligência artificial somada à Internet das Coisas ( IoT), big data, robótica e nanotecnologia são os pilares estruturais da transformação tecnológica do mundo.

Big data é um termo que descreve o grande volume de dados que impactam as empresas diariamente. Mas não é a quantidade de dados disponíveis que importa e, sim, o que as organizações fazem com a integração entre eles.

Robótica é ciência e a técnica da concepção, construção e utilização de robôs. A nanotecnologia trabalha em escala nanométrica, principalmente na produção de circuitos e dispositivos eletrônicos com as dimensões de átomos ou moléculas.

Tudo muda e precisamos nos adaptar

Tais mudanças, explica Martha, impactam profundamente as dimensões de nossa existência: social, biológica, física, ambiental, econômica, cognitiva etc. Pessoas e organizações que mais rapidamente se adaptam à nova configuração de mundo tendem a liderar o cenário. A adaptação significa conviver e interagir com sistemas inteligentes, extraindo informações e gerando valor em suas vidas e negócios.

O objetivo da palestra é apresentar a inteligência artificial que emerge no mundo hoje. E também falar sobre seus impactos e possibilidades, e ainda discutir como utilizá-la de forma a alavancar oportunidades sociais, biológicas e econômicas.

Vamos precisar de habilidades diferentes

Em entrevista para o site Digitalks, Martha falou sobre a inevitável necessidade de adaptação à transformação digital e à IA. “O maior inimigo do novo é aquilo que fazemos muito bem no processo antigo. É que as habilidades em que somos fortes nos prendem ao passado, dificultando que enxerguemos a mudança de paradigmas.”

10 dicas de como se preparar para o futuro e a transformação digital

Martha ressalta que estamos apenas no começo de um grande processo. “E quando o futuro chegará? Segundo Ray Kurzweil, um dos principais cientistas do nosso tempo, a singularidade tecnológica está prevista para 2045. A singularidade tecnológica é prevista como um marco. Existirá quando a capacidade das máquinas superar à do ser humano e continuará a evoluir. Portanto, os próximos anos certamente serão bastante emocionantes e decisivos na história da humanidade.”

Em palestra recente, Martha ofereceu 10 dicas especiais para a plateia:

1 – “Sinto, logo existo”

O novo paradigma é que primeiro sentimos, depois pensamos. O cérebro é constantemente sequestrado pelo coração.

2 – Durma 8 horas por dia

Diversos estudos apontam que nossa capacidade de tomada de decisões diminui com menos tempo de sono. Sonecas também são úteis.

3 – Tenha energia

Precisa estar sempre com energia? Coma castanhas. Café, só até às 15h.

4 – Crie novos neurônios

Faça atividades novas, aprenda um idioma ou a tocar um instrumento. Isso cria novas sinapses em nosso cérebro.

5 – Exercite-se

Nada de novo, mas os benefícios são grandes.

6 – Abrace e ouça

São atos que liberam ocitocina, o chamado hormônio do amor, e diminuem os níveis de cortisol, o hormônio do estresse.

7 – Jogue games

A competição é estimulante. Sempre que puder, jogue um game.

8 – Medite

Não é mais algo espiritual e transcendental, mas uma prática que traz diversos benefícios.

9 – Defina suas prioridades

Tenha claro o que é importante, evite perder tempo com pequenas decisões que podem sugar sua energia. Delegue sempre que possível.

10 – Use a tecnologia

Não sobrecarregue seu cérebro. Use apps de organização e assistentes pessoais, aproveite a tecnologia ao máximo.

Problemas novos, soluções novas

Quer um resumo das ideias de Martha? Assista à sua rápida e cativante palestra intitulada “A Lagarta e a Borboleta – da criatividade à inovação”, no TEDx Jardim das Palmeiras, em Campinas. Em sua fala, ela traz uma lição importante: cada vez que a gente tem um problema novo é preciso soluções novas.